A história de todo Natal...
- jehmalvestuto

- 22 de dez. de 2025
- 6 min de leitura
Todo Natal, uma família nobre senta no tapete diante da lareira e o pai lhes conta a mesma história. No entanto, o conto esconde um segredo que passou despercebido às crianças nos últimos anos, mas nesse Natal tudo pode mudar.

**Contém Spoiler de Condessa até o Amanhecer**
Ashgrove House, Nº. 07 Grosvenor Square, Mayfair, Londres — Inglaterra, Noite de 24 de dezembro de 1899.
O lorde acariciou a mão da esposa apoiada na manga de seu paletó. Um sorriso torceu os lábios dela, tão ansiosa quanto ele para a tradição da véspera de Natal.
— Aggie, não!
Lucy bronqueou a caçula deles que — aproveitando-se da ausência de seus genitores — se esticava para alcançar um dos presentes sob o grande pinheiro adornado de enfeites.
— Só amanhã, querida. — A esposa se acomodou na ponta de um dos sofás. — Conhece as regras.
Conhecer, conhecia, mas era esperar demais que uma garotinha de quatro anos as seguisse. Principalmente sem resmungar um pouco.
— Venha logo, papai!
Anthony, o do meio de seis anos, protestou pela demora. George, no entanto, com oito anos, já se achava adulto demais para demonstrar tanta empolgação, embora os dedos de sua mão cutucassem o veludo das calças caras sem parar.
O nobre se acomodou no tapete com um semblante carinhoso. Agatha se apressou em ocupar o colo do pai como se temesse que os irmãos roubassem tal privilégio. O mordomo, silencioso, apagou as luzes e deixou somente para as velas e para a lareira que ardia a missão de iluminar os pequenos rostos sedentos por uma boa história.
A criada estendeu um prato de biscoitos para a senhora da casa e, então, o pousou no tapete. As crianças começaram a roê-los como ratos, mas os olhos brilhantes não lhe enganavam em nada. Eles se mantinham profundamente interessados na história que o pai lhes contaria naquela noite. Mesmo que fosse a mesma de todas as outras vésperas de Natal.
— Era uma vez, em um país distante…
— Na Austrália? — Anthony quis saber.
Lucy riu baixo.
— Em um país distante e mágico, uma princesa. A Princesa do Inverno que, dia após dia, ano após anos, cansava-se de ver neve pela janela.
— Até que um diaaaaa — o do meio interrompeu.
— Fique quieto! — George o bronqueou.
O pai acariciou os cachos negros de Agatha antes de prosseguir:
— Até que um dia, ela estava tão, mas tão entediada, que resolveu caminhar pelo reino mesmo com tanto frio. E ela caminhou, caminhou, caminhou…
— Caminhou, caminhou e caminhou — Aggie ajudou.
— Até chegar à fronteira ao reino do verão. Onde a grama era verde, os pássaros cantavam e o sol brilhava com tanta força que a princesa ficou encantada. Então — o pai ergueu o indicador —, ela viu um rapaz.
— Mas ele não era um príncipe — George lembrou.
— Não, ele não era. Era um trabalhador esperto, tão esperto, mas tão esperto que contou tudo sobre o reino do verão para a princesa. E ela voltou para vê-lo na fronteira uma vez, duas vezes, três vezes, até que se apaixonaram.
— Eca! — Anthony colocou a língua de fora. — Pule logo para a parte que ele vira um guerreiro e que tem um vilão.
O nobre riu. Impaciência e seu filho do meio haviam nascido no mesmo dia.
— Muito bem... meses depois, quando a princesa completou dezoito anos, seus pais, o rei e a rainha, decidiram que ela se casaria.
— Mas não com o rapaz do verão. — Lembrou George.
— Não — o pai sacudiu a cabeça —, não com ele, mas com um homem muito poderoso do reino do inverno, que já havia visto muito mais invernos que a princesa. E, embora ele fosse um homem muito bom, a princesa sabia que a alegria jamais voltaria a habitar o coração dela enquanto vivesse separada do moço do verão.
— Mas depois eles se reencontraram.
— Sim, George! Sim! Dez anos depois, a princesa já havia se tornado rainha e tinha muito ouro e poder, embora pouca felicidade. No entanto, quando o rei morreu, ela percebeu que tinha um problema. Eles não tinham filhos para herdar o trono e esse iria para o grande vilão.
— Sir Miudinho! — Anthony exclamou em alto e bom som e, então, franziu o nariz para o irmão mais velho. — Por que ele se chama assim?
— Por que acha que eu sei?
A origem do nome de Sir Miudinho era algo sobre a qual o pai preferia não discorrer. Sendo assim, somente continuou a história:
— Sir Miudinho era um homem cruel e ambicioso que queria dominar o reino e machucar a rainha. Então, ela foi muito corajosa e disse, diante de todo povo do Reino do Inverno, que estava esperando um bebê.
— Mas era men-ti-ra! — Um tapa no chão a cada sílaba pronunciada por seu filho do meio.
— Era sim — o pai concordou.
— E mentir é muito feio e quase encrencou a princesa.
O adendo de Lucy o fez sorrir, como o fazia em todos os anos.
As crianças não pareciam muito atentas à reprimenda da mãe.
— Conta, papai! — Aggie reclamou da pausa.
— Então, até que o bebê nascesse, ninguém poderia herdar o trono. Sir Miudinho ficou zangado, e a rainha, com a ajuda de uma bruxa boa…
— Não existe bruxa boa, papai — Agatha parecia convicta.
— Bom, essa era, querida.
— Não. Então, ela era uma fada.
— Ela não vai gostar de saber disso — ponderou em tom baixo. — Bom, a rainha recebeu ajuda e foi se isolar no palácio mais distante do Reino do Inverno, onde mesmo Sir Miudinho teria dificuldade de chegar. E a rainha, desesperada por seu povo, rezou, rezou e rezou, mas ela sabia que era necessário mais que orações para gerar uma criança…
Lucy pigarreou. Ele sorriu.
— Era necessário um amor extraordinário.
A esposa assentiu em aprovação.
— E foi quando o homem do verão retornou.
— Ele retornou, sim, George. O homem do verão soube que a rainha precisava de ajuda e veio como um guerreiro, enfrentando toda a neve do inverno para encontrá-la. E após alguns meses eles não tiveram só um, mas dois filhos que garantiram que Sir Miudinho jamais colocasse as mãos no trono do reino do inverno.
— E teve luta! E sangue! — Anthony se levantou, movendo-se com um verdadeiro herói. — A rainha o atacou com…
— Um garfo — o pai completou.
— Um garfo e… Quê? — O menino pausou a encenação e franziu o cenho.
— Não importa — o nobre riu. — A verdade é que, passado um inverno, a rainha e o homem do verão se casaram, mas até hoje, para garantir a sobrevivência do reino e da rainha, todos pensam que os dois filhos deles são filhos do inverno.
Uma pausa. Três pares de olhos piscando.
— E a rainha ainda aterroriza a todos com seu garfo gigante! — Anthony ergueu os braços e imitou um monstro para cima de Agatha. — Há!
A menininha saiu do colo do pai e correu pela sala com um gritinho agudo.
— Cuidado para não caírem! — advertiu Lucy.
O nobre deixou um riso escapar.
— Lorde Malborne — o mordomo o chamou. — O Sr. e a Sra. Montgomery já chegaram.
O sorriso do conde se ampliou.
— Alice está com eles?
— Sim, senhor.
— Vovó! Vovô! Titia!
Seus filhos menores deixaram as rusgas de lado para correr em outra direção. Na direção da jovem dama que adentrava a sala de estar e do belo casal que a acompanhava. Sua irmã gêmea, sua mãe e seu pai. O homem cujo sangue percorria nas veias de Lorde Malborne, mas que, para toda a sociedade londrina, era somente um padrasto tão querido que os enteados sempre trataram por pai.
Lucy se apressou em cumprimentar os convidados. O nobre se levantou do tapete com a mesma intenção. No entanto, percebeu que seu primogênito e futuro Conde de Malborne não havia se movido um centímetro que fosse e olhava dos avós para o pai com um semblante intrigado.
— George?
— É o senhor não é, papai? — O menino perguntou. — O senhor e a tia Alice. São os filhos do verão?
Os lábios do conde se esticaram e ele ofereceu a mão para o pequeno se levantar.
— Você é muito mais esperto do que eu, rapazinho. Meu pai me contava a mesma história todo fim de ano — confessou, em meio à balbúrdia em que a sala havia se transformado. — Demorou três Natais a menos para descobrir.
Os olhos dele brilharam.
— Demorei mesmo?
— Sim — o conde acenou com a cabeça. — Agora, se puder, ainda não conte ao seu irmão. Ele está mais preocupado com garfos e guerreiros agora.
O menino repetia naquele instante toda sua atuação para os convidados, que se fingiam boquiabertos.
— Sim, senhor — George prometeu.
— Ótimo!
Finalmente o menino correu até o restante da família. Lorde Malborne trocou um sorriso repleto de significado com o Sr. e a Sra. Montgomery e então conferiu seu relógio de bolso.
Nove horas.
— É, talvez a bruxa boa, ou a fada, ainda chegue a tempo para mais biscoitos.
A Bruxa boa (ou fada) chega em 2026 — bem a tempo para os biscoitos.
Vocês estão prontas?




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